13 DIFERENÇAS QUE APRENDI TRABALHANDO NAS ELEIÇÕES DE TORONTO, CANADÁ

Maple Leaf

Vou começar por algumas semelhanças do que aprendi trabalhando nas eleições municipais para prefeito de Toronto porque as diferenças são muitas.

As seções eleitorais são montadas em escolas e repartições públicas; muitas pessoas sequer conhecem seus candidatos e fazem perguntas que eu não poderia responder por motivos de fraude eleitoral, ficam ligeiramente aflitas para não cometer erros na cédula, e cometem. Há muitas abstenções. E, sim, reclamam de impostos e políticos.

Mas as semelhanças param aqui.

1. Toda a equipe contratada é remunerada.

Todos os postos são contratados por entrevista, currículo e treinamento e são remunerados pelo dia trabalhado. Bem, o almoço é por nossa conta. Não vi voluntários, pelo menos não em minha seção.

2. Votar não é obrigatório.

Os eleitores recebem em casa um cartão chamado “voter information card”, ou VIC, uma espécie de título que é basicamente um cartão com endereço. No dia da eleição, o eleitor precisa se identificar com algum documento além do VIC. Não precisa ter foto, mas deve constar o endereço.

3. O dia das eleições não é feriado.

As aulas continuam normalmente. O trabalho, infelizmente, também.

Eleições municipais de Toronto

 

E COMEÇAM AS DIFERENÇAS MAIS BIZARRAS NAS ELEIÇÕES DE TORONTO

4. Você pode se cadastrar para votar no dia da eleição ou votar antes do dia da eleição.

Se não tiver o VIC,  o eleitor precisa passar por uma fila para falar com o revisor, que o identificará, preencherá um formulário adicionando o eleitor ao sistema (de maneira manual, em papel), quase como um cartório eleitoral bem na hora da eleição.

Como o VIC é mandado por correio antes das eleições, o eleitor pode votar antes da data, na prefeitura, por exemplo. No dia da eleição, na seção eleitoral, em caso de extravio do VIC, ele vai ter de ir para a fila da “correção/inscrição”. Eu mesma joguei fora três VICs enviados para minha casa de ex-moradores-eleitores que devem ter ido para a dita fila. Desculpe aí, foi mal. Mas como o endereço é o que importa, iriam para a fila de qualquer jeito.

NO CANADÁ, SUA PALAVRA VALE

5. Você pode votar se for morador de rua ou se estiver sem documentos, só precisa jurar por sua identidade.

Na hipótese de o eleitor não ter o VIC, nenhuma identificação com endereço – sim isso acontece muitas vezes –, mas constar da lista do mesário como eleitor daquela seção, ele poderá assinar uma “Declaração de Identidade”, mediante “juramento” de que ele é ele mesmo (quá, quá, quá,rsrsrsrs) e votar. Se não estiver na lista, deverá ir para a fila e arrumar o cadastro. Em caso de morador de rua, o revisor deverá cadastrar alguma indicação de abrigo, coordenada geográfica, esquina entre ruas em que ele costuma “morar” e novamente, ele só precisará assinar a Declaração de Identidade. Para quem não sabe, no Brasil, moradores de rua estão mesmo à margem da sociedade e não conseguem exercer seus direitos de cidadão.

Declaração de Identidade para eleitores de Toronto

6. Você pode votar no lugar de seu vizinho.

Você precisará preencher um formulário, ter assinatura reconhecida em um notário público – tá bom, é chato – mas seu vizinho pode ir em seu lugar votar por você. Você só deve ter certeza que seu amigo seja um “liberal” ou um “conservador” mesmo antes disso… 🙂

7. A questão de gênero não é tratada como “mi, mi, mi”

No quesito respeito às diversidades, aos LGBTs, ao “politicamente correto”, o Canadá está à frente do Brasil em alguns anos-luz. Se o eleitor é um transexual e suas identificações da lista não conferem, ele precisa ir pra fila. Passei por vários casos de mudança de nome ou nome alterado para o sobrenome do companheiro ou companheira. A pessoa ficava constrangida e, depois, aliviada pelo bom tratamento recebido. Fomos instruídos a não usar palavras baseadas no gênero, como “senhor”, “senhora”, “madame”, “ele”, “ela” etc.,  simplesmente com base na aparência física de uma pessoa. Ninguém era proibido de usar as expressões, mas, quem mora aqui em Toronto deve saber bem que devem ser usadas, digamos… com parcimônia.

8. Você pode ter um intérprete.

Tive o prazer de usar meu lindo idioma durante o trabalho como mesária, muitas vezes, ajudando os idosos da comunidade portuguesa que não entendiam os procedimentos ou a cédula. Ali, bem atrás da cabine de papelão, sem problemas. Os eleitores poderiam trazer seus próprios intérpretes, que assinariam uma Declaração de Intérprete, mas, é claro, eles também desconhecem este direito.

9. Não existe urna eletrônica.

Aparentemente atrasado em relação às eleições brasileiras, existe um tabulador, que recebe a cédula (veja um exemplo aqui) com o alvéolo preenchido, como aqueles de vestibular. Após o fechamento da seção, o presidente deverá “telefonar” para uma central e passar o resultado das votações, que será computado mais tarde oficialmente.

POR QUE O ENDEREÇO É TÃO IMPORTANTE NAS ELEIÇÕES DE TORONTO?

10. O eleitor vota de maneira distrital, para “prefeito”, “councillor” e “trustees”.

A cidade é dividida em 25 wards (distritos). É eleito um “councillor” para cada “ward”.  O eleitor só pode escolher um “councillor” para seu respectivo distrito o que significa, na prática, que há muitas cédulas diferentes entre si, contendo os nomes dos candidatos do respectivo distrito.

EDUCAÇÃO PÚBLICA: PRIORIDADE, PRIORIDADE e… PRIORIDADE

11. O eleitor elege o “trustee”, uma espécie de secretário de educação de seu distrito.

Além do “councillor” daquele distrito, o eleitor escolhe um “trustee”, uma espécie de secretário de educação, referente ao Conselho da escola pública para a qual seus impostos como cidadão são destinados; ou seja, sua cédula pode conter um “trustee” do conselho de educação das escolas públicas inglesa, pública francesa ou pública francesa-católica de acordo com seu endereço.

ACESSIBILIDADE, OUTRA MARCA DAS ELEIÇÕES DE TORONTO

12. Você pode votar se estiver hospitalizado.

Em algumas residências para idosos, é montada uma pequena seção eleitoral. O bracelete de identificação da enfermaria (!!!) é documento válido de identificação.

13. O eleitor deficiente pode votar sem sair de seu próprio automóvel.

Existem locais especiais para voto de deficientes. Caso o eleitor vá a uma seção eleitoral comum, mesmo com rampas de acessibilidade, mas esteja impedido de sair do automóvel, um mesário poderá ser deslocado até ele. Isso não aconteceu na prática, porque, como no Brasil, os eleitores também não conhecem muito bem os seus direitos e vários idosos com muitas dificuldades apareceram na seção.

 

Participar das eleições de Toronto reforçou ainda mais minha convicção de que, só democraticamente, pelo voto direto, é possível mudar uma nação. É somente pela democracia cujo significado original se perdeu (demo = pessoa comum, povo; cracia = poder, ou seja soberania ou poder do povo) – que é possível crescer como sociedade mantenedora de direitos humanos básicos de escolha, respeito às diferenças e liberdade. No Brasil, temos mesmo muito pelo que lutar e aprender.

 

Gisele C. Batista Rego – É tradutora e revisora com mais de 20 anos de experiência nas áreas de localização de software, tradução jurídica, revisão editorial e acadêmica e normas ABNT. Revisora da publicação “Justice Yearbook Who’s Who of Brazilian High Courts” (Anuário da Justiça brasileira) e do estudo para o Ministério da Justiça, “Homicídios de Crianças e Adolescentes no Brasil” do Centro de Estudos da Violência da NEV / USP. Foi corretora do Enem e Fuvest por mais de 15 anos.

 

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2 Comments

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