O QUE DEVEREMOS TEMER OU NOS ORGULHAR

Há algumas semanas, em um ônibus no centro de Toronto, um rapaz, não exatamente travestido, mas com o rosto pintado com tinta fluorescente e cabelos curtos brilhando em purpurina, puxou papo com minhas filhas se dizendo “ser uma fada”. Foi uma conversa divertida em que ele dizia ter adorado os anéis de minha filha mais velha, depois comentou que ele poderia estar fantasiado de fada, uma vez que seus cabelos brilhavam e ele estava vestido de maneira “extravagante”, com muitas cores “de menina”.

De repente, ele se virou para mim e meu marido e perguntou: “Do you guys think that I am gay enough?” [Vocês acham que estou gay o suficiente?”], disse apontando para si mesmo, referindo-se a seus trajes e sua pintura no rosto. “Yes, I think so. For sure” [Acho que sim, com certeza], respondi, acenando afirmativamente com a cabeça e pondo a mão no queixo como quem dissesse, “deixa eu pensar”. “Oh, thank you, you are so sweet” [Obrigado, você é tão gentil”].

Depois, trocamos algumas conversas sobre o Brasil. Perguntei-lhe se ele conhecia a parada gay de São Paulo, ele ficou curioso com o fato de ser um evento tão grande o qual desconhecia. Então, ele soltou uma frase que ficou ecoando no meu pensamento por alguns dias. “Hey, por que eles não fazem uma Parada Hetero lá?  Os brasileiros são rechonchudos? Gosto dos gordinhos porque eles não podem fugir rápido de mim…”. Ri do seu último comentário, mas tive vontade de chorar em se tratando do primeiro.

Era claro que o jovem não tinha a menor noção do que acontece com os movimentos LGBT e “anti-LGBT” no Brasil. A pergunta ingênua daquele rapaz traz à tona profundas diferenças históricas entre os dois países e, na atualidade, governamentais.

Não, não pretendo comparar levianamente Canadá e Brasil. É cometer muita injustiça e desconsiderar anos de história, abismos sociais e colonização díspares.

AINDA QUE A IMAGEM QUE ILUSTRA O POST PAREÇA UMA COMPARAÇÃO, NA VERDADE, É SÓ UM ALERTA

Confesso que ser mulher nesse momento me traz mais conforto e liberdade de tratar do assunto, pois faço parte de uma minoria social – ainda que muitas pessoas tenham dificuldade de entender e aceitar o epíteto, inclusive as mulheres. Em particular, as mulheres brasileiras. O meu post não trata da comparação entre governos de direita e esquerda, mas de visões distorcidas do mundo. A pauta LGBT faz parte das discussões recentes em vários países: os direitos de cidadãos que, sim, ainda vivem fugindo da perseguição em diversos cantos do planeta.

Refiro-me mesmo à aceitação do outro. Não se engane, no Canadá, a aceitação também é na base da lei. Mesmo que YouTubers como os meninos  Will & Greg que, com a escolha errada das palavras,  já disseram que “no Canadá, você não pode ter preconceito”, o que ocorre, de fato, é que o preconceito existe, o que não se permite é a “discriminação”.

Desconhece história quem acredita que o Canadá tenha sempre sido o país progressista que se apresenta, ou pelo menos tenta arduamente se apresentar para o mundo. Da mesma forma que, em muitos países menos progressistas, incluindo o Brasil, a questão LGBT é ainda controversa em se tratando de políticas públicas, no Canadá, foi somente após 1969 que “atividades sexuais consentidas entre ADULTOS do mesmo sexo”, maiores de 21 anos, passaram a ser descriminalizadas, pois antes havia penas de prisão.

E, pasmem, foi somente em 1996, que o Canadian Humans Rights Act foi alterado para conter o artigo em que trata da proibição da discriminação com base na “orientação sexual”.

E se antes parecia para você, leitor, que havia um abismo nas diferenças de tratamento das questões LGBT porque o primeiro-ministro do Canadá saiu às ruas empodeirando a Parada Gay de Toronto, agora, é possível perceber que são somente VINTE E TRÊS anos que separam o Brasil e o Canadá no assunto LGBTs e Direitos Humanos.

NO BRASIL, FOI SOMENTE EM 13 DE JUNHO DE 2019, QUE O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF) DETERMINOU QUE A DISCRIMINAÇÃO POR ORIENTAÇÃO SEXUAL E IDENTIDADE DE GÊNERO PASSASSE A SER CONSIDERADA  CRIME

Não há como se proibir o “preconceito”. Não está no limite das leis mudar o que se “sente” pelo outro, mas está em seu limite coibir que o sentimento particular das pessoas venha à tona em forma de violência, seja física, seja moral, seja pelo discurso de ódio, da discriminação.  A lei impede que os medos interiores e o autoquestionamento da sexualidade – próprios do ser humano – sejam manifestados de forma vil, como repúdio do outro, do diferente, daquilo que nos angustia ou amedronta.  

REFERÊNCIAS

BARIFOUSE, Rafael. STF aprova a criminalização da homofobia. 13/6/2019. BBC News Brasil. 2019. Disponível em:<https://www.bbc.com/portuguese/brasil-47206924>. Acesso em: 25/6/2019.

CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto De Decreto Legislativo de Jair Bolsonaro. Em que visa sustar os efeitos da Resolução nº 11, de 18 de dezembro de 2014, do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais – CNCD/LGBT, da Secretaria de Direitos Humanos, 2015. Disponível em: <https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/prop_mostrarintegra?codteor=1310126&filename=Tramitacao-PDC+18/2015> Acesso em: 25/6/2019.

CANADÁ. Government of Canada. Human Rights. Rights of LGBTI persons. 2018. Disponível em:<https://www.canada.ca/en/canadian-heritage/services/rights-lgbti-persons.html>. Acesso em: 25/6/2019.

CANADÁ. Justice Laws Website. Canadian Human Rights Act (R.S.C., 1985, c. H-6). Disponível em: <https://laws-lois.justice.gc.ca/eng/acts/H-6/>. Acesso em 25/6/2019.

HUMAN RIGHTS CAMPAIGN FOUNDATION. Hate Crimes and Violence Against LGBTQ People. Disponível em: <https://assets2.hrc.org/files/assets/resources/Hatecrimesandviolenceagainstlgbtpeople_2009.pdf?_ga=2.57282346.1221220046.1561488053-1805731507.1561488053> Acesso em: 25/6/2019.

SAVARESE, Mauricio. Brazil’s Bolsonaro targets LGBT people, Indigenous groups on 1st day in office. CTV NEWS, Toronto, 2019. Disponível em: <https://www.ctvnews.ca/world/brazil-s-bolsonaro-targets-lgbt-people-indigenous-groups-on-1st-day-in-office-1.4237987>. Acesso em: 25/6/2019

MARZULLO, Michelle A. ; LIBMAN, Alyn J. . Hate Crimes and Violence against Lesbian, Gay, Bisexual and Transgender People. HUMAN RIGHTS CAMPAIGN FOUNDATION. Disponível em: <https://assets2.hrc.org/files/assets/resources/Hatecrimesandviolenceagainstlgbtpeople_2009.pdf?_ga=2.57282346.1221220046.1561488053-1805731507.1561488053>. Acesso em: Acesso em: 25/6/2019

Gisele Rego – É tradutora e revisora com mais de 20 anos de experiência nas áreas de localização de software, tradução jurídica, revisão editorial e acadêmica e normas ABNT. Revisora da publicação “Justice Yearbook Who’s Who of Brazilian High Courts” (Anuário da Justiça brasileira) e do estudo para o Ministério da Justiça, “Homicídios de Crianças e Adolescentes no Brasil” do Centro de Estudos da Violência da NEV / USP. Foi corretora do Enem e Fuvest por mais de 15 anos. 

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