“N” VERSUS “N” e a cultura do estupro

Não é possível formar uma opinião com bases em imagens e fatos pouco organizados. Não é possível dizer, categoricamente, que alguém está mentindo, armando, com base em argumentos morais, com base em comportamentos sexuais não aceitos pela moralidade cristã da família, de uma sociedade patriarcal, admitindo-se, de antemão, o que deve ser um comportamento aceitável, instituído para uma mulher, ou seja, a de dever ser “recatada e do lar” para não sofrer agressões ou o estupro.

               Também é fato que não se pode julgar um acusado de um crime que não se sabe, ao certo, se foi cometido. Acusação leviana é crime também. Não se pode julgar um acusado sem provas materiais que, sim, podem ser forjadas.

               Mas, infelizmente, é possível ver nitidamente de que lado a “sociedade da cultura do estupro” se encontra, no mundo inteiro. O julgamento já é antecipado. A corda só vai arrebentar do lado mais fraco, sempre. Homens podem até se dar ao luxo de não concordar com este pensamento, pois fazem parte do jogo, “são ao mesmo tempo juiz e parte” (apud Simone de Beauvoir). Mas as mulheres não.  

A questão aqui não é de quem é a culpa. Se há mentiras ou não. Se há armação ou não. Se existe uma vítima de fato ou não. A questão é: as mulheres também aceitam passivamente a CULTURA DO ESTUPRO. As mulheres aceitam passivamente a IDEIA IMPLÍCITA PERPETUADA POR HOMENS DE QUE ESTES MESMOS HOMENS TÊM DIREITO AO CORPO DAS MULHERES.

QUE ESTES MESMOS HOMENS têm direito de decidir sobre QUANDO E COMO eles desejam o corpo das mulheres, independentemente da moral imposta, independentemente de elas serem recatadas, puritanas, esposas, filhas, irmãs, jovens, ingênuas, adultas, lésbicas, maduras, com ou sem decotes, com ou sem minissais, com ou sem o corpo à mostra, sejam ou não prostitutas, sejam ou não profissionais do sexo, sejam ou não modelos.

Chega da cultura do estupro. Do linchamento virtual. É só analisar as mensagens implícitas para ver quem sempre ganha.

Mídia completamente parcial: caso Najila versus Neymar
Mídia completamente parcial: caso Najila versus Neymar
Mídia completamente parcial: caso Najila versus Neymar

Gisele C. Batista Rego – É tradutora e revisora com mais de 20 anos de experiência nas áreas de localização de software, tradução jurídica, revisão editorial e acadêmica e normas ABNT. Revisora da publicação “Justice Yearbook Who’s Who of Brazilian High Courts” (Anuário da Justiça brasileira) e do estudo para o Ministério da Justiça, “Homicídios de Crianças e Adolescentes no Brasil” do Centro de Estudos da Violência da NEV / USP. Foi corretora do Enem e Fuvest por mais de 15 anos.

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